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Coreografar A Crise
Guzzo, Marina
Glac Edicoes
87,00
Sob encomenda 4 dias
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O que mais ressoa em Shelter (2024), de Simryn Gill (Richard Saltoun Gallery), é justamente aquilo que você não consegue ver completamente: paredes cobertas de papel vegetal, sobre as quais se encontram fricções em carvão daquilo que não pode jamaiss er contido, do que resiste à transferência.
Catherine de Zegher monta esses decalques, desloca essas não representações frágeis para dentro da galeria. Trata-se de uma colaboração: Gill, a artista, percorre a camada incipiente do irrepresentável d o mundo, de sua ecologia frágil. De Zegher, a curadora, ativa os seus interstícios para um breve momento de representação. O que emerge: o entre indizível.
Coreografar a crise — gestos entre arte e ecologia, de Marina Guzzo, é um gesto curatorial desse tipo — ao mesmo tempo artístico e dotado de um toque delicado capaz de captar a incipiência daquilo que não pode propriamente ser representado. Porque os gestos não podem ser representados: são movimentos.
Movimentos menores são desvios da l inha. Eles captam seu tremor e o intensificam. Não são nem pequenos nem gentis. Seu modo de existir não é o de uma postura moral.
Quando um gesto “minora”, quando se move no ritmo do menor, ele inclina a existência, perturbando o caminho reto e es treito. O menor é a qualidade, o toque, da capacidade intensa do gesto de redireciona — ou, melhor dizendo, de proliferar.
Nego Bispo escreve sobre a impossibilidade da linha reta da herança:
A geração da avó está preparando a geração da neta p ara ser a próxima geração-mãe; ao mesmo tempo, a geração da mãe está preparando a geração da neta junto com a geração da avó; e a geração da avó aprenderá a ser a próxima geração-avó através da geração da neta. A geração da neta também ensina a geraç ão da mãe a se tornar aquilo que elas são.
A herança “minora” no relato de Bispo. O gesto menor aqui não é a linhagem, mas o modo como a espiral genealógica carrega a potencialidade-neta dentro da mãe, o modo como a mãe é carregada pelo futuro-pas sado que ela sempre também está se tornando.
A ecologia ambiental chegou a um ponto de inflexão. Nenhuma estabilidade pode ser prevista: o limiar crítico do ponto de inflexão produz estados emergentes que não têm precedentes. Pensar o sem-preceden tes significa captar a curva, tornar-se espiral. Aprender a pensar a partir do ângulo do céu caído, como diria Davi Kopenawa: “Escavando tanto, os brancos vão acabar até arrancando as raízes do céu”. Um ponto de inflexão ecológico conduz a uma casc
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